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Problemas do Brasil e da Rússia

Última atualização em 17/07/2016

Bandeira Brasil e Rússia Esta página é um resumo do artigo "Dois desapontamentos" de Roberto Campos. O artigo fala sobre os desapontamentos de dois grandes países, Brasil e Rússia. O texto enfatiza os problemas comuns e tenta explicar o porque desses dois países não terem se firmado no mundo desenvolvido . O artigo original, de Roberto Campos, publicado em 02/01/2000, começa assim:
O fim do século XX e o começo de um novo milênio redobram o interesse internacional em análises comparativas de desempenho. Sob esse prisma, há dois grandes países que se tornaram grandes desapontamentos: Brasil e Rússia. Grande desapontamento pela diferença entre o potencial que é reconhecidamente enorme, e o desempenho, que é admitidamente medíocre. Nenhum desses países tem o direito de ser pobre. Ambos confirmam minha velha teoria de que há países naturalmente ricos, mas vocacionalmente pobres (Brasil, Rússia, Venezuela, por exemplo). Há países naturalmente pobres, mas vocacionalmente ricos (Japão e Suíça). E há casos raros, como o dos Estados Unidos, que são ricos por natureza e por vocação.

Na Rússia, a atual humilhação é particularmente aguda. Tendo sido uma superpotência nuclear, descobriu que está inaugurando uma nova tipologia de país: é um "novo pobre". Sua renda por habitante é um sexto da japonesa e a dimensão de seu PIB real é ridícula. Isso deveria ter ensinado aos nossos nacionalistas a enorme bobagem de se confundir recursos naturais, que são cadáveres geológicos, com riqueza real, que vem da educação e da tecnologia.

O Brasil nunca chegou ao estágio de superpotência. Mas depois do salto juscelinista dos anos 50 e do "milagre brasileiro" de 1968 até a crise do petróleo [por volta de 1977/78], era uma respeitável potência emergente, que parecia condenada ao sucesso e a tornar-se uma grande potência. No entanto, chegamos ao fim do século XX com um indecente déficit fiscal, um humilhante déficit externo e duas décadas de estagnação.

Haverá semelhanças que expliquem, pelo menos parcialmente, os desapontadores resultados do Brasil e da Rússia? Alguns analistas apontam três semelhanças no século XIX que ainda projetam sombras negativas sobre o presente. Desde aquela época, essas duas nações multiculturais e imperiais (o império russo sobreviveu até 1917 e o brasileiro até 1889) apresentaram três perniciosas analogias: 1 - alta taxa de analfabetismo; 2 - atraso na abolição da escravatura (servos de gleba ou escravos negros); 3 - economia patrimonialista.

Estatísticas reconstruídas pelo professor Nathaniel Leff, de Harvard, sobre a estrutura educacional no século XIX revelam que Brasil e Rússia eram campeões do analfabetismo. Em 1850, apenas 1% da população brasileira era alfabetizada; na Rússia, 2%. Na Europa Ocidental, a situação era melhor e mais diferenciada: 7% na Holanda, 10% na França e 14% na Inglaterra.

A grande surpresa são os Estados Unidos, que já em 1850 tinham 22% da população alfabetizada, provavelmente pela influência dos puritanos imigrantes (cristãos protestantes), que consideravam a leitura da Bíblia condição indispensável da cidadania. Não é de se subestimar a importância econômica de três traços culturais trazidos pelos dissidentes religiosos [dissidentes católicos que se tornaram protestantes]: a alfabetização imposta pela leitura da Bíblia; o coral dominical que impõe hábitos de cooperação e disciplina; e a rebeldia religiosa, que favorecia a mentalidade não conformista.

Um segundo fator de semelhança entre Brasil e Rússia no século XIX foi o prolongamento do regime de servidão. Isso retardou o interesse na busca de alternativas tecnológicas para redução do custo da mão-de-obra, e retardou também o crescimento do mercado interno, refreando a capacidade de consumo dos não-assalariados.

Um terceiro fator de semelhança foi a cultura patrimonialista dos dois regimes imperiais, que retardou o advento do capitalismo competitivo. Nenhum desses países absorveu adequadamente dois elementos básicos da cultura capitalista: a soberania do consumidor e o respeito ao contribuinte.

O grande erro russo no século XX foi a institucionalização do comunismo, esse misto de despotismo político e ineficiência econômica. A Rússia sempre foi vítima de modernizações tiranicamente impostas, e não democraticamente referendadas. Assim foram a modernização de Pedro o Grande e a industrialização forçada de Stalin.

O Brasil teve sorte em não agravar seus problemas por opções institucionais erradas, aderindo desde o começo do século XX à democracia política e à economia de mercado, ainda que sem praticá-las contínua e competentemente. Na realidade, passamos do mercantilismo patrimonialista ao capitalismo de Estado, sem chegarmos ainda à fase do capitalismo liberal-competitivo. O neoliberalismo, de que tanto se fala, seria até uma doença desejável, mas ainda não fomos contaminados...
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Autor: Roberto Campos

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